Dados e Infraestrutura · Relacionado ao Capítulo 5

O Titanic digital da saúde: por que seus sistemas não conversam entre si

O Titanic digital da saúde: por que seus sistemas não conversam entre si

Por André Leite e Vinícius Lain, autores de IA em Saúde.

Imagine um transatlântico moderníssimo, com os melhores equipamentos disponíveis em cada setor — mas em que a ponte de comando, a sala de máquinas e o posto médico falam idiomas diferentes e não têm como se comunicar em tempo real. É basicamente o retrato de boa parte da infraestrutura de tecnologia da saúde hoje: hospitais excelentes, operadoras sofisticadas, laboratórios de ponta — cada um com seu próprio sistema, seu próprio formato de dado, sua própria "língua", incapazes de trocar informação de forma fluida entre si.

Esse problema tem nome técnico — interoperabilidade — e tem uma solução em construção há anos, o padrão HL7 FHIR, que tenta fazer pelos sistemas de saúde o que um idioma comum faria por aquela tripulação fictícia. Mas a adoção plena ainda é a exceção, não a regra. E por trás disso existe também um incentivo perverso conhecido no mercado como vendor lock-in: uma vez que um hospital entra em determinado sistema fechado, sair dele custa tão caro — em dinheiro, em tempo, em risco operacional — que a instituição fica presa, como num hotel de onde, segundo a canção, você pode fazer o checkout quando quiser, mas nunca vai embora de verdade.

O custo dessa Torre de Babel tecnológica não é abstrato. É o paciente que troca de plano e perde o histórico. É o exame refeito porque o resultado anterior está preso num sistema que o hospital seguinte não consegue ler. É a IA promissora que nunca sai do papel porque não existe dado estruturado e acessível o suficiente para treiná-la e operá-la com segurança.

Toda a promessa de inteligência artificial em saúde depende, silenciosamente, de uma pré-condição pouco glamorosa: dados que conversam entre sistemas diferentes, de forma padronizada e segura. Sem isso, qualquer algoritmo — por mais sofisticado que seja — vira um mestre em resolver problemas isolados, incapaz de enxergar o paciente como um todo, porque nenhum sistema, sozinho, tem a visão completa.

Resolver interoperabilidade não é a parte sexy da inovação em saúde. Mas é, com boa margem, a fundação sem a qual todo o resto — desde o algoritmo mais simples até a IA generativa mais avançada — continua sendo promessa sobre um convés que já está afundando lentamente, sob os pés de quem insiste em não conversar.

André Leite Vinícius Lain
André Leite e Vinícius Lain — autores de IA em Saúde.
André Leite · Vinícius Lain

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