Dados e Infraestrutura · Relacionado ao Capítulo 16

O momento Enigma da saúde moderna: seu hospital está pronto para um ataque cibernético?

O momento Enigma da saúde moderna: seu hospital está pronto para um ataque cibernético?

Por André Leite e Vinícius Lain, autores de IA em Saúde.

Em 1942, quebrar o código da máquina Enigma alemã mudou o curso da Segunda Guerra Mundial — não porque tenha criado uma arma nova, mas porque revelou que a informação, protegida ou desprotegida, decide batalhas tanto quanto qualquer arsenal. A saúde moderna está vivendo seu próprio momento Enigma, só que ao contrário: em vez de quebrar o código do adversário, é o sistema de saúde que precisa, urgentemente, proteger o próprio código — seus dados, seus sistemas, sua infraestrutura digital — contra quem está tentando quebrá-lo.

Em 2017, o ataque de ransomware conhecido como WannaCry paralisou parte significativa do sistema de saúde público do Reino Unido, cancelando cirurgias, desviando ambulâncias e deixando hospitais inteiros sem acesso a prontuários eletrônicos por dias. Não foi um ataque direcionado especificamente à saúde — foi um ataque genérico que encontrou, no setor, uma vulnerabilidade gigantesca e sistemas desatualizados demais para resistir. Em 2020, na Finlândia, o vazamento de dados da clínica de psicoterapia Vastaamo expôs registros extremamente sensíveis de milhares de pacientes, usados posteriormente para extorsão individual — um lembrete brutal de que dado de saúde vazado não é só um problema de conformidade regulatória, é um risco direto à vida e à dignidade de pessoas reais.

Diferente de outros setores, a saúde carrega uma vulnerabilidade dupla: além de guardar dado extremamente sensível — talvez o mais sensível que existe sobre uma pessoa —, ela depende de sistemas funcionando em tempo real para decisões que literalmente salvam vidas. Um ataque cibernético a um banco causa prejuízo financeiro. Um ataque a um hospital pode custar vidas de forma direta e imediata.

A resposta não pode ser proporcional ao orçamento de TI disponível — precisa ser proporcional ao risco real. Isso significa investimento contínuo em segurança da informação, treinamento de toda a equipe (a maioria dos ataques bem-sucedidos começa com um clique humano, não com uma falha técnica sofisticada), planos de contingência testados de verdade, não só documentados numa gaveta, e uma cultura institucional que trate cibersegurança como parte da segurança do paciente, não como item de TI separado do core assistencial.

A pergunta que todo gestor de saúde deveria fazer hoje não é "vamos sofrer um ataque?". É "quando sofrermos um, quanto tempo levamos para voltar a funcionar com segurança — e quantas vidas dependem dessa resposta?".

André Leite Vinícius Lain
André Leite e Vinícius Lain — autores de IA em Saúde.
André Leite · Vinícius Lain

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